O Banco do Brasil (BB) registrou prejuízo contábil de aproximadamente R$ 40 bilhões em 2025, impactado por provisões elevadas para perdas em sua exposição ao Banco Master e deterioração no agronegócio, resultado que marca o pior desempenho em décadas para a instituição estatal e reacende debates sobre gestão de riscos no sistema financeiro.

Balanço anual e impacto do caso Master

O relatório financeiro divulgado nesta sexta-feira revela que o prejuízo contábil não ajustado atingiu R$ 39,8 bilhões, enquanto o lucro líquido ajustado, excluindo efeitos extraordinários, fechou em R$ 20,7 bilhões, queda de 45,4 por cento ante 2024. A diferença decorre principalmente de uma provisão extraordinária de R$ 60,5 bilhões relacionada à liquidação extrajudicial do Banco Master, autorizada pelo Banco Central em fevereiro de 2026, na qual o BB atuou como agente fiduciário de emissões de CDBs que somaram mais de R$ 40 bilhões em indenizações pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Essa provisão reflete o reconhecimento de perdas esperadas em garantias prestadas pelo banco a carteiras de títulos do Master, investigado por fraudes bilionárias em fundos de investimento e emissões irregulares de papel comercial. Analistas apontam que, embora o FGC, entidade de capital privado, arque com o pagamento a cerca de 800 mil investidores, o BB absorve impactos regulatórios por sua posição fiduciária, elevando o custo do crédito para R$ 61,9 bilhões no ano.

Pressão do agronegócio e inadimplência generalizada

Além do Master, o balanço expõe fragilidades crônicas na carteira agro, que representa 31 por cento do crédito total de R$ 1,296 trilhão. A inadimplência acima de 90 dias no setor saltou para 6,09 por cento, puxando o índice geral para 5,17 por cento, com provisões para devedores duvidosos (PDD) explodindo 86,9 por cento no quarto trimestre, totalizando R$ 19 bilhões só ali.

Fatores climáticos adversos, queda nos preços de commodities como soja e milho, e endividamento acumulado dos produtores rurais agravaram o quadro, com a carteira prorrogada, renovações de dívidas vencidas, saltando de R$ 10 bilhões para R$ 50 bilhões. A margem financeira bruta encolheu 0,8 por cento para R$ 103,1 bilhões, pressionada por despesas de captação mais altas e receitas de serviços estagnadas.

Reações do mercado e projeções para 2026

As ações do BB (BBAS3) caíram 4,2 por cento na abertura do pregão após o balanço, refletindo preocupações com a rentabilidade, cujo ROE (retorno sobre patrimônio) despencou para 11,3 por cento, ante 21 por cento em 2024. Bancos como BBI e Genial Investimentos destacam que, apesar do lucro ajustado superar expectativas, a qualidade do resultado permanece fragilizada, com custo de crédito elevado sinalizando riscos persistentes.

A presidente-executiva Tarciana Medeiros classificou 2025 como “ano desafiador” e projetou 2026 ainda pressionado, com lucro ajustado entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, margem financeira bruta de R$ 105 bilhões a R$ 110 bilhões e custo de crédito em R$ 53 bilhões a R$ 58 bilhões. O guidance indica desaceleração no crescimento da carteira de crédito para 3 a 5 por cento, priorizando qualidade sobre volume em meio a um ciclo de crédito adverso no agro.

Contexto regulatório e lições institucionais

O episódio do Banco Master, sob escrutínio do STF após saída de Toffoli da relatoria, expõe vulnerabilidades no papel de agentes fiduciários estatais em emissões de alto risco. O Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu análise técnica sem irregularidades na liquidação pelo BC, mas o caso impulsiona discussões sobre limites de exposição de bancos públicos a fundos de investimento e necessidade de reformas no FGC.

Internamente, o BB anunciou reforço em governança de risco, com novas ferramentas de modelagem preditiva para agro e revisão de garantias fideicomissárias, mas críticos veem no prejuízo um alerta para dependência excessiva do setor rural, que responde por 56 por cento do risco de crédito recente. Para investidores, o episódio reforça a percepção de que o banco estatal, apesar de dividendos atrativos em anos bons, enfrenta ciclos voláteis ditados por commodities e regulação.

Perspectivas e impactos sistêmicos

Embora o prejuízo contábil domine manchetes, executivos enfatizam que o core business permanece resiliente, com pessoa física crescendo 7,6 por cento e consignados impulsionando receitas. Contudo, o impacto no Tesouro Nacional, acionista majoritário, eleva custos fiscais em um 2026 de consolidação orçamentária sob governo Trump, com dividendos projetados em patamar 30 por cento inferior a 2024.

O caso Master e a crise agro configuram lição para o setor financeiro: em um ambiente de juros altos e volatilidade climática, a diversificação e o pricing de risco tornam-se imperativos para estatais como o BB, cuja recuperação dependerá de safras favoráveis e normalização regulatória.

Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

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