

O Banco Regional de Brasília, o BRB, instituição financeira controlada majoritariamente pelo Governo do Distrito Federal, vê emergir nos corredores do mercado financeiro debates acalorados sobre sua possível federalização, em meio a uma crise de liquidez precipitada pela liquidação do Banco Master e investigações da Polícia Federal. Fontes do setor bancário revelam que executivos de instituições privadas e públicas iniciaram sondagens informais sobre cenários alternativos para o resgate da entidade, incluindo a absorção por gigantes federais como Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal, enquanto o novo presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, empossado em novembro de 2025, reitera publicamente o descarte de tal medida. Essa discussão, ainda que preliminar, evoca precedentes históricos do Plano Real, quando dezenas de bancos estaduais foram incorporados ao sistema federal para sanear endividamentos crônicos e estabilizar o SFN, o Sistema Financeiro Nacional.
O estopim da controvérsia reside na operação Compliance Zero, deflagrada pela PF em novembro de 2025, que apura fraudes bilionárias envolvendo a compra de carteiras de crédito do Banco Master pelo BRB. A transação, avaliada em cerca de 12 bilhões de reais, incluía ativos superfaturados ou inexistentes, gerando um rombo estimado em 5 bilhões no balanço patrimonial do banco distrital. O ex-presidente Paulo Henrique Costa, afastado judicialmente, e o dono do Master, Daniel Vorcaro, preso, figuram como alvos centrais das investigações por suposta gestão temerária, lavagem de capitais e emissão de títulos falsos. O Banco Central, sob pressão regulatória, rejeitou previamente a aquisição em setembro de 2025 por riscos excessivos, mas o BRB prosseguiu com compras parciais, agravando a fuga de depósitos e demandando vendas emergenciais de créditos consignados e antecipações do FGTS para conter o colapso.
Nos bastidores, banqueiros debatem a federalização como saída pragmática. Analistas do mercado, consultados sob anonimato, argumentam que a integração ao Banco do Brasil, que já possui sinergias regionais no Centro-Oeste, preservaria empregos, ativos estratégicos como a carteira de consignados do funcionalismo distrital e a função social do BRB como instrumento de desenvolvimento local. Precedentes como a incorporação do Banco do Estado de São Paulo pelo BB em 2000 ou do Banestado em 1997 ilustram o modelo: intervenção do BC seguida de fusão, com garantias do Fundo Garantidor de Créditos para correntistas. Contudo, o presidente Souza, em entrevista exclusiva ao Poder360, enfatiza um Plano de Recuperação de Capital entregue ao BC em 6 de fevereiro de 2026, prevendo injeções de liquidez via empréstimos do FGC, vendas de carteiras imobiliárias e aportes do Tesouro do DF, num prazo de 180 dias. Ele sinaliza um recuo estratégico para o foco regional, abandonando ambições nacionais que diluíram a solidez patrimonial.
A resistência à federalização transparece nas declarações oficiais e em movimentos sindicais. Servidores do BRB, representados por associações como a dos Funcionários do Banco de Brasília, posicionam-se contra qualquer desestatização, vendo na entidade um patrimônio público essencial para o financiamento de políticas distritais, desde habitação popular até crédito rural no entorno do Planalto Central. A OAB-DF e deputados da Câmara Legislativa, como Erika Kokay do PT, ecoam essa visão, alertando para a irresponsabilidade de gestões anteriores que comprometeram até 20% do patrimônio com despesas extravagantes, como publicidade ostensiva. O governador Ibaneis Rocha, acionista controlador via GDF, defende a autonomia do banco, mas enfrenta críticas por falhas de governança que expuseram o contribuinte brasiliense a prejuízos bilionários.
Do prisma econômico, a crise do BRB reflete vulnerabilidades sistêmicas dos bancos regionais em um cenário de juros elevados e restrições fiscais. Com patrimônio líquido pressionado e índice de Basileia abaixo dos patamares regulatórios, a instituição vendeu ativos premium para mitigar saques, mas analistas preveem necessidade de até 6 bilhões de reais em capital fresco. A federalização, defendida por vozes como o economista Luís Costa Pinto em análises recentes, poderia injetar estabilidade via tesouro nacional, mas demandaria aval político do governo Lula, que prioriza equilíbrio fiscal em 2026 com meta de superávit de 0,25% do PIB. Bancos privados, como Itaú e Bradesco, observam de longe, interessados em eventuais leilões de carteiras, mas reticentes a intervenções estatais que distorçam a concorrência.
Juristas e reguladores divergem sobre os desdobramentos. O diretor de Fiscalização do BC, Gilneu Vivan, recebe o plano de capital, mas pode impor medidas compulsórias se o cronograma falhar, incluindo liquidação extrajudicial, destino do próprio Master. Especialistas em direito bancário, como os do OA Juricaba, prognosticam que as investigações da PF culminarão em intervenção federal ou absorção, responsabilizando o controlador final, o governador Rocha, por danos ao erário público. Movimentos como o Instituto Conhecimento Liberta já ventilam a federalização como remédio inevitável, comparando ao processo FHC que extinguiu anomalias estaduais.
Essa conjuntura posiciona o BRB no centro de um debate mais amplo sobre o futuro dos bancos públicos regionais em uma economia globalizada. Enquanto o mercado financeiro sonda opções, com reuniões discretas entre banqueiros e consultores, o DF equilibra interesses políticos e econômicos. A federalização, se concretizada, não apenas sanearia o balanço, mas reconfiguraria o mapa financeiro local, potencialmente fortalecendo o BB no Centro-Oeste. Para o contribuinte, porém, persiste a interrogação sobre accountability: quem arcará com o custo de gestões imprudentes em nome do patrimônio coletivo? Em Brasília, epicentro do poder, o destino do BRB emerge como termômetro da tensão entre autonomia estadual e supervisão federal, num ano de eleições municipais que amplificam as apostas políticas.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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