

Para quem estamos falando na comunicação?
Por Vinicius Mororó – Jornalista Atípico
Vivemos um tempo em que falar nunca foi tão fácil.
As redes sociais romperam barreiras históricas e transformaram qualquer cidadão em potencial produtor de conteúdo, com acesso imediato a ferramentas de publicação, distribuição e audiência. A promessa da era digital foi a democratização da voz.
O resultado, porém, foi outro: nunca houve tanta gente falando ao mesmo tempo e nunca foi tão difícil ser efetivamente ouvido.
Diante desse cenário, uma pergunta essencial segue sendo ignorada tanto por iniciantes quanto por profissionais experientes da área:
quem, de fato, está nos ouvindo?
A lógica dominante nas plataformas digitais é a da viralização. Conteúdos são produzidos em ritmo industrial, rotinas pessoais são transformadas em narrativa pública e opiniões são lançadas em sequência quase automática. Tudo acontece sob a expectativa de que os algoritmos “enxerguem” o material e o projetem para grandes audiências.
A promessa implícita é sedutora: se o conteúdo for bom, ele encontrará seu público.
Na prática, essa promessa raramente se confirma.
Ao longo da minha atuação profissional no jornalismo especialmente em coberturas políticas, institucionais e investigativas acompanhei campanhas bem fundamentadas fracassarem não por falhas de informação, mas por erro de rota. Mensagens tecnicamente corretas, dados relevantes e posicionamentos legítimos simplesmente não chegaram a quem deveriam alcançar. O problema não estava no conteúdo. Estava no caminho percorrido por ele.
Essa constatação se repete com frequência desconfortável: o ponto central da comunicação não está apenas no que se diz, nem exclusivamente em quem diz.
O fator decisivo é onde se fala, por meio de qual veículo, sob qual mediação e para qual público.
Comunicação não é apenas produção de conteúdo. Comunicação é processo. É mediação. É percurso completo entre quem formula a mensagem, quem a distribui e quem efetivamente a recebe. Ignorar qualquer uma dessas etapas compromete o resultado final, por melhor que seja a intenção inicial.
Um bom conteúdo, quando publicado no canal errado ou direcionado ao público inadequado, perde força, impacto e relevância. Da mesma forma, comunicadores experientes podem ser invisibilizados quando falam em ambientes que não dialogam com sua mensagem ou onde não existe escuta qualificada.
No ambiente digital, raramente falamos diretamente com as pessoas. Falamos através de filtros.
Esses filtros têm nome e lógica própria. Plataformas digitais operam com algoritmos que priorizam engajamento, não necessariamente relevância pública. Veículos de imprensa trabalham com linhas editoriais, critérios de noticiabilidade e disputas de agenda. Assessorias selecionam o que será exposto e o que permanecerá nos bastidores. Nenhum desses intermediários é neutro e fingir que são é um erro estratégico grave.
No campo político, institucional e jornalístico, esse erro custa credibilidade.
No campo social, custa relevância.
No campo profissional, custa espaço.
Por isso, mais importante do que falar bem é saber para quem se fala.
Isso exige compreender o perfil do público, seus códigos, sua linguagem, seus interesses e também suas limitações. Exige reconhecer que visibilidade não é sinônimo de comunicação bem-sucedida e que alcance momentâneo não constrói vínculo, confiança nem impacto duradouro.
Gritar no ambiente digital costuma produzir apenas eco. Comunicação começa quando alguém, do outro lado, tem condições reais de escutar e quando a mensagem foi pensada levando isso em conta desde o início.
Quem ignora essa lógica pode até produzir muito conteúdo.
Pode até alcançar números pontuais.
Mas dificilmente constrói comunicação consistente, duradoura e socialmente relevante.
No fim das contas, a pergunta que deveria orientar qualquer estratégia de comunicação não é “o que eu quero dizer?”, mas outra, bem mais exigente:
quem tem condições reais de me ouvir, por quais caminhos essa mensagem vai passar e por que ela deveria atravessar esses filtros?

